Vídeo: Fotógrafos são barrados de fotografar ministros do STF após sessão conturbada: “como marginais”
Fotojornalista relata sufoco do lado de fora do Supremo e restrições à imprensa em meio à crise do caso Banco Master

Fotógrafos credenciados para cobrir o Supremo Tribunal Federal (STF), em Brasília, denunciam terem sido barrados de fotografar os ministros da Corte nesta terça-feira (15/9), durante a sessão que discutiu a possível abertura de investigação contra o ministro Alexandre de Moraes. Mantidos do lado de fora do prédio-sede por horas, sem acesso a banheiro e sem lugar para sentar, os profissionais afirmam terem sido tratados pela segurança do tribunal “como marginais”. O episódio ocorre em meio ao agravamento da crise interna do STF provocada pelo caso Banco Master.
O relato do fotojornalista Eduardo Fernandes da Silva Lima, que cobre a rotina do Supremo, conta ter sido impedido até de entrar no prédio. “Fomos impedidos de entrar. Só adentrava ao Supremo quem estava cadastrado pelas grandes empresas, com pin”, afirma Eduardo, em entrevista a O TEMPO. Para ele, o problema é mais antigo: “O credenciamento não chega a todos. As informações só chegam de forma privilegiada para quem é setorista, dentro do grupo deles”, diz.
Fora do prédio, o fotógrafo relata ter ficado por horas sem lugar para sentar e sem banheiro por perto, cercado por seguranças. “Foi assim que me senti ontem: como se fôssemos marginais”, diz Eduardo. Segundo ele, para circular pela área reservada à imprensa era preciso passar por um detector de metal. “Para sair do cercado, tínhamos que passar pelo detector de metal, como se a mídia oferecesse perigo iminente de bomba”, afirma.
Mesmo sem ter conseguido entrar, Eduardo tentou registrar o plenário ao fim da sessão por uma brecha na cortina que dava para o interior do prédio. “Quando bateu o sinal do fim da sessão, coloquei a lente em um único buraco que dava para ver lá dentro. Veio um segurança, me cutucou e disse que ali era proibido fazer fotos”, relata. O fotógrafo afirma ter obedecido de imediato, depois de presenciar, mais cedo, um cinegrafista sendo repreendido asperamente por sair do lado errado do cercado. “Para não passar por isso, obedeci, mas com muita indignação”, completa.
Para Eduardo, a relação entre a imprensa e o Supremo azedou nas últimas semanas. “Eles gostam de confrontar, mas não gostam de ser confrontados. A imagem não mente. O papel aceita o que escrevemos, mas as imagens falam por si só”, avalia. Questionado se as restrições vão mudar sua forma de cobrir o STF, ele diz que sim — mas afirma que não vai deixar de trabalhar. “Infelizmente, sim, porque a gente precisa levar o sustento para casa. Aprendi nessa profissão que pedir desculpa é sempre o ideal. A gente nunca pede licença”, diz.
Fotografia que gerou climão dentro do Supremo
O episódio desta terça-feira não é isolado. Desde 3 de setembro, a segurança do STF vem impedindo fotógrafos e cinegrafistas de se aproximar das vidraças do Salão Branco, área por onde os ministros circulam após as sessões. A medida foi tomada um dia depois de o fotógrafo Brenno Carvalho, do jornal O Globo, registrar Alexandre de Moraes, Gilmar Mendes e Cristiano Zanin sorrindo e conversando ao fim da primeira sessão presencial da Corte após a divulgação de mensagens que o ex-banqueiro Daniel Vorcaro, do Banco Master, teria trocado com Moraes. A imagem repercutiu por contrastar com a gravidade da crise enfrentada pelo tribunal. Para Eduardo, o aperto na segurança pouco tem a ver com a foto em si: “Foi só mais uma desculpa. No Supremo, tudo já é muito difícil de se fazer, do credenciamento até a realização do trabalho”, avalia.
Abraji cobra regras claras para a imprensa
O caso de Eduardo não foi isolado naquele dia. Na mesma terça-feira, a Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji) divulgou nota lamentando a proibição de acesso de fotojornalistas credenciados à sessão que discutiu o caso de Moraes. Segundo a entidade, o STF justificou a decisão pela falta de espaço no plenário — argumento que a Abraji considera pouco plausível, já que os fotógrafos não ocupam assentos e permanecem no local por poucos minutos. A associação classificou o acesso da imprensa às sessões como uma questão de “função pública, sujeita ao escrutínio público e controle social” e cobrou da Corte regras fixas e transparentes para o credenciamento. A deputada federal Adriana Ventura (Novo-SP) e o senador Carlos Viana (PSD-MG) também tiveram entrada negada ao plenário na mesma sessão.
A sessão em si foi um dos episódios mais tensos da história recente do tribunal: marcada por bate-boca entre ministros, foi interrompida por um pedido de vista do ministro Flávio Dino no momento em que o julgamento tinha placar provisório de 4 votos a 3 pela tramitação separada dos casos de Moraes e do ministro André Mendonça. Dino tem até 90 dias para devolver o processo ao plenário, o que deixa em aberto, por ora, tanto o desfecho do caso quanto o futuro das regras de acesso da imprensa ao Supremo.
Fonte: O Tempo



























Comentários