Câncer de mama em jovens aumenta e reforça importância do diagnóstico precoce
- Saimon Ferreira

- 24 de out.
- 5 min de leitura
História de mãe e filha destaca casos da doença entre mulheres jovens e mostra como testes moleculares podem orientar tratamentos mais assertivos

O Outubro Rosa reforça, mais uma vez, a importância da detecção precoce do câncer de mama. Embora a mamografia seja indicada para mulheres a partir dos 40 anos, o número de diagnósticos entre jovens com menos de 35 cresceu quase 15% na última década, segundo o INCA, dado que alerta para a necessidade de atenção aos sinais do corpo.
Helena Colino, hoje com 26 anos, é uma das jovens que recebeu o diagnóstico de forma precoce, aos 23, enquanto ainda acompanhava a mãe no tratamento da mesma doença.
Em 2023, ela foi orientada pela mastologista a realizar exames, já que o painel genético da mãe havia confirmado uma mutação (BRCA2) associada ao surgimento do câncer. A ecografia identificou alguns cistos, o que não chegou a preocupá-la. No entanto, ao realizar uma ressonância magnética no final daquele ano, descobriu um tumor de 5 cm na mama esquerda.
“Estávamos juntando força pra comemorar e para dar um grito de ‘acabou’ [o tratamento da mãe], mas descobrimos que ainda não tinha acabado, pois eu também estava com o diagnóstico e íamos ter que passar por todo o processo de novo, agora eu sendo paciente, não cuidadora”, conta Helena. Em 17 de janeiro de 2024, Letícia Colino, mãe de Helena, fazia sua última radioterapia e, no dia seguinte, a filha iniciava a quimioterapia.
“Eu não quis tocar o sino lá no Erasto (ao final do tratamento oncológico, os pacientes tocam um sino para simbolizar a cura em um hospital referência em Curitiba – PR), porque não fazia sentido nenhum para mim. Eu falei: ‘vou esperar minha filha concluir o tratamento e vou tocar o sino junto com ela’. Então só considerei encerrado o meu processo quando ela também finalizou o dela, pois antes disso não fazia sentido”, relembra Letícia. O tratamento de ambas durou dois anos.

Letícia apresentou sintomas como cansaço constante, até perceber os nódulos durante o autoexame. Já Helena só descobriu meses depois que o mamilo invertido era, na verdade, um sinal de alerta: o tumor já havia comprometido o ducto mamário e provocava o recuo do mamilo.
“Nós temos percebido um aumento crescente dos casos de câncer de mama em mulheres jovens abaixo dos 40 anos, cerca de 10% a 15% dos casos. Nesta população, não temos um exame de rastreamento ou uma recomendação formal de se fazer mamografia, por isso é importante conhecer os sinais de alerta”, explica Aline Cristine Vieira, oncologista do Instituto de Oncologia do Paraná e do Hospital São Marcelino Champagnat.
Entre os sinais, a especialista destaca o surgimento de nódulos ou caroços na mama ou axila; alterações na textura da pele, que pode ficar mais avermelhada ou com aparência semelhante à casca de laranja; pequenas retrações na pele, como se houvesse uma cicatriz puxando a mama; e a saída de secreção pelo mamilo, principalmente clara, cristalina ou até sanguinolenta.
Apesar dos diversos sintomas e alertas, o câncer é uma doença silenciosa, assim como foi para Helena.
“Eu não tive dor, não tive nada. Então, foi muito difícil assimilar mesmo, porque eu achava que eu sabia o que falavam. Câncer é uma doença silenciosa, mas eu não imaginava que era tanto ao ponto de você não sentir nada mesmo”, conta.
Quando descobriu o tumor, ele já estava no estágio 3, com prognóstico de cura, mas a médica explicou que, se demorasse alguns meses, o tratamento poderia ter se tornado paliativo. A oncologista destaca que a maior dificuldade no diagnóstico em mulheres jovens é a ausência de exames de rastreamento bem estabelecidos. Além disso, muitas acreditam que, pela idade, não correm risco. “Em pacientes mais novas, o câncer de mama tende a ser mais agressivo e com comportamento desafiador”, afirma.
O autoexame, apesar de não substituir exames de imagem e avaliação médica, é um grande aliado e ferramenta de reconhecimento. “Conhecer as suas mamas ajuda a perceber qualquer alteração e possibilita um diagnóstico mais precoce, permitindo tratamentos menos agressivos e com maiores chances de cura”, reforça Aline.
Diagnóstico molecular pode identificar mutações em biomarcadores
Além dos exames de imagem e dos painéis genéticos, que identificam possíveis mutações associadas à doença, há testes mais específicos, que possibilitam a personalização do tratamento e até indicam medidas redutoras de risco.
“Nos últimos anos, vivemos uma grande revolução no tratamento oncológico, inclusive no câncer de mama, isso pela identificação de drivers moleculares. Para mulheres com mutação nos genes BRCA1 e BRCA2, especificamente, nós podemos lançar mão de terapias direcionadas para esses genes, que são os inibidores de PARP”, explica a especialista.
Entre as medidas de redução de risco, a médica cita a retirada dos ovários e trompas — indicada para mulheres até os 40 anos com mutação no gene BRCA1, ou até os 45 no caso do BRCA2 — e a possibilidade da retirada das duas mamas como forma profilática, prevenindo a reincidência ou o surgimento de um novo câncer.
“Além de alterações nos genes BRCA, contamos com diversas outras alterações que nos guiam no tratamento, como a hiperexpressão da proteína HER2 ou mutação do gene PIK3CA”, ressalta Aline. Entre os exames que permitem identificar mutações em biomarcadores-chave está a linha EasyPGX, comercializada pela Mobius, empresa especializada em soluções de biologia molecular para diagnóstico oncológico.
Os testes identificam mutações no PIK3CA (orienta terapias-alvo como alpelisibe), ESR1 (indica resistência à hormonioterapia) e DPYD (previne toxicidade em quimioterapia). Além de serem rápidos, com resultados em menos de três horas, os testes são precisos e de alta sensibilidade, facilitando decisões clínicas e reforçando o papel do diagnóstico molecular na medicina personalizada.
Do choque inicial ao tratamento e a remissão
Para mãe e filha, o diagnóstico foi o momento mais difícil — “a sensação é de que o chão se abre sob os pés”, como descrevem. Depois do impacto inicial, vieram as sessões de quimioterapia, exames complementares, radioterapia, reposições hormonais e o longo processo de recuperação.
“No momento em que eu ouvi, da médica que seriam 16 quimioterapias, eu senti que eu estava num júri recebendo uma sentença e que eu ia para prisão e ficaria, no mínimo, seis meses de reclusão”, lembra Helena.
Durante o tratamento, Helena decidiu transformar a própria vivência em arte. Formada em design, ela já havia qualificado seu Trabalho de Conclusão de Curso e, diante do diagnóstico, decidiu registrar sua rotina em vídeo. “Eu sabia que eu queria fazer um documentário, mas quando eu recebi o diagnóstico, vi diante de mim uma oportunidade. Então, pensei: vou gravar minha vida, tudo que eu estiver sentindo e essa transformação”, conta.
“Eu estava ciente de que eu ia passar por uma transformação gigantesca, então eu consegui ainda, antes do casulo fechar, começar a filmar. Filmei a rotina de exames e como eu estava me sentindo, e isso se tornou meu projeto de TCC. Eu sabia que ao final do ano eu teria um material que mostrava toda a minha trajetória, em que eu tinha muita certeza e segurança de que ia acabar bem e que ia ser um documentário de câncer com um final feliz”, afirma Helena.
Após meses de tratamento, exames de imagem confirmaram em junho de 2024 que o tumor de Helena já não existia mais e uma parte da batalha estava vencida. O documentário ressalta idades, datas e marcos ligados ao tempo dessa trajetória.
“A gente considerou essa questão do tempo de duas formas: primeiro por eu ser jovem, mas também por a gente ter conseguido o diagnóstico ainda no estágio 3. Depois desse episódio, não tem mais desculpa. Acompanhamento médico e exames estão acima de tudo, porque eu vi que sem a minha saúde eu não consigo fazer as outras coisas, e foi isso que eu quis passar no documentário: ainda dá tempo”, complementa.






























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