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Câncer em pessoas com menos de 50 anos cresce no Brasil

  • há 2 dias
  • 5 min de leitura

Especialistas destacam mudanças no perfil da doença, saúde mental e avanços no tratamento oncológico

Foto: DB Diagnósticos - Reprodução
Foto: DB Diagnósticos - Reprodução

O câncer é um termo que abrange mais de cem doenças caracterizadas pelo crescimento anormal de células no corpo. Uma das principais causas de morte no país, a neoplasia foi responsável por mais de 600 óbitos por dia no Brasil em 2024, conforme dados do Instituto Nacional do Câncer (INCA). Celebrado na última quarta-feira (4), o Dia Internacional do Combate ao Câncer estimula o debate sobre a importância do diagnóstico precoce da doença, os impactos na saúde mental após o diagnóstico e os avanços da medicina nos tratamentos disponíveis.


Se no passado o câncer era majoritariamente associado a pessoas idosas, hoje esse cenário mudou. Nas últimas três décadas, conforme a revista internacional de saúde BMJ Oncology, os diagnósticos em pessoas com menos de 50 anos aumentaram em até 80% entre 1990 e 2019. A médica oncologista cooperada da Unimed Porto Alegre Fernanda Pruski ressalta que esse crescimento é percebido em maior escala nos subtipos de câncer de mama, intestino, tireoide, colo do útero e de cabeça e pescoço. A especialista explica que esse fenômeno também impacta a mortalidade, que teve um aumento aproximado de 30% nessa faixa etária.


— Sobre as causas, não identificamos um fator único, mas sim um conjunto de fatores. O estilo de vida é crucial: dietas ricas em ultraprocessados e conservantes, aliadas ao sedentarismo, contribuem significativamente. O exercício físico é um fator protetor conhecido, mas enfrentamos problemas globais como a obesidade, que provoca inflamação crônica e desequilíbrios hormonais. Também há fatores ambientais, como a poluição e a exposição a substâncias químicas na água e no ar. Por fim, há o avanço na detecção: hoje contamos com diagnósticos mais precoces e exames de triagem que identificam a neoplasia em estágios iniciais, o que também impacta os dados estatísticos — diz.


Essa mudança no perfil etário da detecção do câncer impõe novos desafios, como explica o gerente do Centro de Oncologia e Infusão da Unimed Porto Alegre, André Laske. Isso por que muitos jovens não se veem como população de risco e acabam minimizando sintomas persistentes, atribuindo-os ao estresse ou à rotina intensa. Como consequência, a doença tende a ser identificada mais tarde, quando já está em estágios mais avançados.


— O que a oncologia tem reforçado, tanto no Brasil quanto em países com sistemas de saúde mais estruturados, é a necessidade de ampliar o olhar para a prevenção e a vigilância desde cedo. Não se trata de alarmar, mas de reconhecer que o câncer deixou de ser um problema exclusivo da velhice e passou a exigir atenção ao longo de toda a vida — ressalta.


Saúde mental e qualidade de vida


Mesmo com os avanços da medicina, que têm tornado o tratamento do câncer cada vez menos invasivo, a doença ainda carrega um estigma significativo. Além dos impactos na saúde física, o diagnóstico afeta profundamente a vida dos pacientes, alterando relações de trabalho, familiares e sociais. O médico oncologista cooperado da Unimed Porto Alegre Gustavo Werutsky explica que o tratamento frequentemente afasta o paciente do trabalho e do convívio social, o que pode gerar sentimentos de angústia e quadros de depressão.


— Hoje, tentamos minimizar esses impactos com tratamentos de suporte, que reduzem a toxicidade. Estimulamos a atividade física durante a quimioterapia e, quando possível, o trabalho remoto. Manter a rotina a mais próxima do normal possível contribui significativamente para a saúde mental durante esse período — complementa.


Corpo e autoestima


A aparência física é alvo de grande preocupação para pacientes. Fernanda Pruski ressalta que, muitas vezes, o próprio ambiente ou até profissionais de saúde minimizam esse aspecto ao dizerem que "o cabelo é o de menos", quando, na prática, não é bem assim. Para muitas pessoas, essas mudanças impactam diretamente a vaidade, o autocuidado e a identidade.


— Muitas pacientes têm vergonha de demonstrar essa preocupação perto da família, mas trata-se de uma angústia legítima. O mesmo vale para quem trabalha com a imagem ou com a voz, como nos casos de neoplasias de laringe. Nosso papel é entender a rotina daquele indivíduo, acolher suas preocupações e auxiliar no processo de readaptação social — complementa a médica.


Em contrapartida, Werutsky, especialista em câncer de mama, destaca que hoje cerca de 90% das pacientes não precisam mais retirar o órgão por completo. Devido aos avanços na medicina, atualmente é possível realizar cirurgias conservadoras, removendo apenas o fragmento necessário. Isso ocorre porque os tratamentos atuais são tão eficazes que conseguem reduzir o tumor antes mesmo da cirurgia.


— Durante a quimioterapia, evitamos procedimentos invasivos pelo risco de infecção, mas o fato de as pacientes terem disposição para questionar e se informar mostra que o tratamento não é mais aquele "horror" do passado. Hoje, conseguimos oferecer uma vida quase normal durante o processo, com altas chances de cura — comenta.


Cuidado em rede


Depois da confirmação do diagnóstico, é necessário construir uma força-tarefa para lidar com as particularidades, desejos e necessidades dos pacientes. André Laske esclarece que o suporte multidisciplinar é fundamental ao longo dessa jornada: psicólogos, enfermeiros, fisioterapeutas, farmacêuticos, nutricionistas e a equipe médica, quando atuam de forma integrada, oferecem escuta qualificada, ajudam a reorganizar expectativas e devolvem ao paciente pequenas escolhas, capazes de restaurar a sensação de controle.


— A rede de apoio também exerce um papel decisivo. Família, amigos e cuidadores podem ser fonte de sustentação, mas, em alguns contextos, também podem gerar tensões, cobranças ou silêncios difíceis de administrar. Além disso, condições socioeconômicas desfavoráveis, como insegurança financeira, dificuldade de acesso ao transporte ou a necessidade de manter o trabalho durante o tratamento, funcionam como obstáculos reais à elaboração emocional e à adesão terapêutica. Ignorar esses fatores é desconsiderar uma parte essencial da experiência do adoecimento.


Transformações no tratamento


A medicina é uma das áreas que mais investe em pesquisa e atualização constante para promover qualidade de vida a milhares de pessoas. A oncologia, em especial, evoluiu de forma significativa em diferentes frentes, e cada uma delas trouxe ganhos relevantes para o cuidado ao paciente.


As cirurgias se tornaram mais precisas e menos invasivas, com maior preservação das funções orgânicas e da imagem corporal. Isso impacta diretamente a forma como o paciente vivencia o tratamento, mantendo sua autonomia no dia a dia — inclusive durante o processo terapêutico, quando muitos seguem trabalhando, cuidando da família ou preservando parte da sua rotina.


Entre os avanços tecnológicos do setor, o gerente do Centro de Oncologia e Infusão da Unimed Porto Alegre André Laske destaca alguns pontos:


  • Avanços tecnológicos e terapêuticos: a radioterapia está cada vez mais precisa, preservando tecidos saudáveis e reduzindo significativamente os efeitos colaterais

  • Tratamentos medicamentosos: houve evolução para quimioterapias mais toleráveis, além do avanço das terapias-alvo e da imunoterapia, que ampliam as possibilidades de resposta ao tratamento

  • Medicina personalizada: o câncer passa a ser compreendido de forma individualizada, considerando a biologia tumoral, a genética e o histórico de vida de cada paciente. Assim, o cuidado é moldado às necessidades específicas de quem recebe o tratamento

  • Nova visão de sucesso clínico: o objetivo já não é apenas a cura a qualquer custo, mas o equilíbrio entre o controle da doença e a preservação da qualidade de vida

  • Importância da pesquisa clínica: fundamental para o desenvolvimento e segurança de novas terapias, que buscam melhores resultados com menor impacto no bem-estar dos pacientes

  • Abordagem humanizada: a oncologia contemporânea baseia-se na escuta, na responsabilidade e no respeito à trajetória individual de cada pessoa em tratamento


Fonte: GZH


 
 
 

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